Por Rosa Gonçalves*
Desde as eleições municipais de 2020, o Programa Vida de Mulher criou um quadro chamado “Inclusão da mulher na política”, com o objetivo de informar e promover o debate democrático sobre a urgência da participação das mulheres nos espaços de política e de poder. Assim, começou uma série de entrevistas com as candidatas locais sobre a paridade na política e motivou a participação das mulheres no processo eleitoral desse ano.
Essa experiência teve como efeito o engajamento de mais mulheres nos partidos. Neste ano 2024, no município de Independência, no estado de Ceará, 19 mulheres disputam 11 cadeiras no poder legislativo.
A Rádio Comunitária Independência retomou o projeto durante o mês de setembro realizando uma série de entrevistas e de maneira estratégica foi acrescentada a temática sobre o combate à violência de gênero na política.
Inspiração e oportunidade
Ao longo das entrevistas, as candidatas comentam que ainda têm que enfrentar o silenciamento de muitas mulheres que estão ocupando cargos ou estão na política. E avaliam essa situação como uma das mais violentas formas de misoginia que uma mulher pode sofrer.
Selma Melo explica: “a política já existia dentro de mim, mas não tinha oportunidade. Graças à chegada do meu neto e a minha participação na Marcha das Margaridas é que fui me encorajando: por que não a mulher na política?”
Desde o Programa da FM Comunitária Independência, se coloca a necessidade de buscar formas de criar ambientes mais acolhedores e equitativos para as mulheres, e de ampliar políticas públicas ligadas a questões de gênero e raça para mudar a sobrecarga assumida pelas mulheres nas tarefas domesticas, cuidar dos filhos e trabalhar em política.
Ilka Martins afirma: “o que mais me motivou foi aquela pessoa chamada Marielle (Franco), nossa querida e saudosa Marielle. O papel daquela mulher na política é lindo, ela lutava pela comunidade e a Marielle me espelhou muita coisa.
Lugar de mulher é onde ela quiser
A inserção das mulheres na criação da Rádio Comunitária em Independência no interior do Ceará, vem desde 1997 com a fundação da Associação Comunitária de Radiodifusão de Independência. Foram elas na sua maioria que se empenharam nas campanhas e lutas para que a radio fosse legalizada e a ter a sua concessão.
A partir de 2009, as mulheres assumiram a direção da radio, representando 50% de seu quadro e sentiram a necessidade de fortalecer os debates sobre gênero, combatendo o machismo no rádio e garantindo conteúdos não discriminatórios em sua programação em relação a gênero. Uma das primeiras iniciativas foi a criação de um programa que, além das mulheres da rádio, envolveu o coletivo de mulheres dos movimentos sociais e das comunidades. Assim nasceu o Programa Vida de Mulher com metodologia participativa, que inclui entrevistas, debates, rodas de conversa, informações locais e nacionais que também são veiculadas pela internet, com espaço para agenda cultural e participação diversas. A ideia é que o programa junto com sua audiência, possa pensar e a refletir sobre vida, gênero, cidadania e direitos humanos
Violência de gênero na política
Em suas falas, as candidatas do município de Independência no Ceará, descrevem sua vocação pela política, mas também a violência exercida sobre elas pela sua condição de mulheres como ameaças com palavras desagradáveis, gestos ou outros meios. As mulheres também relatam interrupções frequentes de sua fala em ambientes políticos, impedimento para usar a palavra e realizar clara sinalização de descrédito e desqualificação.
Cardia Coutinho manifesta que ela é “alvo direto de muitos ataques. É difícil estar candidata, é difícil enfrentar aos homens com todo o poder que eles pensam que têm. A gente tenta que essas situações não se internalizem. Sou da bandeira que fala que as pessoas oferecem o que elas têm. ”
A candidata Bruna Teixeira diz “já passei por muitas amarguras dentro da política, muitas coisas que hoje nem imaginaria que estaria aqui”. E continua: “estou aqui para defender às pessoas, político é para trabalhar não para ser adorado ou adulado pelas pessoas”.
Esses ataques promovem a crença de que a mulher não possui competência para a função a que está se candidatando ou para ocupar o espaço público onde se apresenta. Outras formas de assédio e discriminação das mulheres na política são a filiação de mulheres nos partidos apenas para cumprir a lei de cotas, ou o desvio de recursos de campanhas das candidaturas femininas para as masculinas.
Essas situações, explicam as candidatas, causam constrangimento e desconforto, e têm a clara intenção de paralisá-las e afastá-las das suas comunidades e áreas de atuação.
Ilka Martins reconhece que “isso é um grande assédio, as pessoas não acreditar no potencial da mulher. A gente tem competência para ser o que for em qualquer cargo político ou na sociedade. Vai depender de nós desenvolver o nosso trabalho perante a sociedade. ”
A candidata Selma Melo conta que “depois que entrei na política estou sentido perseguição, e isso está me impedindo de atuar na minha comunidade como vivo atuando, como mãe, como avó, como agricultora. Mas eu vou permanecer na caminhada, porque isso, nós mulheres temos que ter: coragem. E eu tenho essa coragem”.
Confira os trechos de áudio das candidatas, no Programa Vida de Mulher da FM Comunitária Independência 104,9, de Ceará:
Candidata Bruna Teixeira
Candidata Cardia Coutinho
Candidata Ilka Martins
Candidata Selma Melo


6 Comentários
Parabéns pela matéria. Como sempre, conteúdos de qualidade.
Muito grata Jociel. Contamos com com você para divulgação dos conteúdos. Abraços.
Obg pela oportunidade de falar um pouco sobre quem é Selma Melo
Precisamos de mais mulheres na política pra garantir nossos direitos
Hoje entrevista no Independência informa pela FM Comunitária de Independência ce.
Ressaltando a importância deste veículo de comunicação Comunitária que tem contribuído com a democracia neste processo de impulsionar as mulheres de participar desde processo de cidadania.
Parabéns a Agência Pulsar Brasil pela divulgação!