REDAÇÃO*
Uma delegação formada por representantes de 15 organizações da sociedade civil brasileira cumpre, entre os dias 20 e 24 de julho, uma agenda de reuniões em Washington e New York, nos Estados Unidos (EUA), para tratar de democracia, soberania nacional e regulação das big techs. A missão é organizada pelo Washington Brazil Office (WBO) e ocorre num momento em que o governo dos Estados Unidos tem sido apontado por parte da sociedade civil brasileira como fonte de pressão e ingerência sobre a disputa presidencial deste ano no país.
Segundo os organizadores, a iniciativa responde à atuação de setores da ultradireita brasileira radicados nos EUA, apontados como incentivadores dessa interferência. Em resposta, a comitiva defende junto a seus interlocutores a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro e pede que Washington se abstenha de ingerência no pleito de outubro. As entidades também pedem que parlamentares norte-americanos pressionem seu governo a reconhecer o resultado das urnas logo após a apuração, independentemente de quem vença, em sintonia com o princípio da não intervenção entre Estados soberanos.
Reuniões e articulações
Ao longo da semana, a delegação se reuniu com diplomatas da Embaixada do Brasil em Washington, com o embaixador brasileiro na Organização dos Estados Americanos (OEA) e com representantes dos escritórios da entidade dedicados ao fortalecimento da democracia e à observação eleitoral, além de integrantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
No Congresso norte-americano, os encontros incluíram os deputados democratas Mark Pocan, Joaquin Castro, Chuy García e Jonathan Jackson, equipes ligadas a Jim McGovern, Sydney Kamlager-Dove, Tim Kaine e Peter Welch, e também representantes republicanos, entre eles o deputado John Kennedy.
O grupo ainda programou um encontro com a AFL-CIO, maior federação sindical dos EUA, e atividades na Heinrich Böll Foundation sobre plataformas digitais, regulação das big techs e impactos ambientais de data centers. Nesta quinta-feira (23/7), ocorre uma mesa-redonda sobre desinformação no contexto eleitoral.
A comitiva está integrada pela Articulação dos Povos Indígenas – APIB, Comissão Arns, CUT – Central Única dos Trabalhadores, Direitos Já, GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, Instituto Futuro, Instituto Marielle Franco, Instituto Vladimir Herzog, IP.rec – Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife, LAPIN – Laboratório de Políticas Públicas e Internet, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, Odara – Instituto da Mulher Negra e Plataforma CIPÓ.
Pela democracia e contra as interferências
Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, afirmou que a mobilização atual dá sequência à articulação internacional construída em 2022 e voltou a defender “a defesa da solidez e da estabilidade democrática brasileira”. Paulo Vannuchi, da Comissão Arns, avaliou que os encontros têm sido receptivos e destacou que “os direitos humanos devem ser o parâmetro legítimo para a atuação internacional do Brasil”. Segundo Vannuchi, a equipe do deputado Jim McGovern manifestou apoio à integridade do processo eleitoral brasileiro.
Rogério Studart, da Direitos Já! Fórum pela Democracia, ressaltou a necessidade de “a atenção permanente, coesa e articulada em defesa da democracia brasileira”. Pela CUT, Antônio Lisboa reforçou que a “solidariedade internacional em defesa da democracia brasileira” integra a agenda sindical da entidade. Já Larissa Correia de Amorim, do Instituto Marielle Franco, chamou atenção para a “prevenção de todos os atos de violência política contra as mulheres”, enquanto Gabriela Batista Pires Ramos, do Instituto Odara, alertou para o risco de “aumento dos discursos de ódio e de racismo nestas eleições”.
Representantes do IP.rec e do Lapin defenderam que “a legislação brasileira seja respeitada por todas as empresas estrangeiras” que operam no país. Fábio Balestro Floriano, do Instituto Futuro, defendeu que “as ingerências políticas unilaterais devem ser denunciadas e rechaçadas”. Renata Castro Boulos, do MTST, falou sobre “a centralidade da agenda de lutas por direitos”, e Oscar Apinage, da Apib, chamou atenção para “a importância crucial que o desfecho desta eleição tem” para o debate climático e a proteção de povos indígenas.
Ana Paula Barreto, do Instituto Libera, ressaltou “a importância da formação de redes internacionais de solidariedade para proteger as mulheres”, e Pedro Paulo Bocca, do Gife, lembrou que “os desafios enfrentados pelo Brasil também estão presentes em diferentes países”. Já Iman Musa resumiu o sentido da missão afirmando que “manter e defender o Estado de Direito diante de situações desafiadoras requer coragem”.
* Com informações da Comissão Arns e do Instituto Vladimir Herzog

