Teresa Torres e Sofía Hammoe
Todo 25 de julho é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e da Diáspora, data que reafirma as pautas em torno do reconhecimento, da justiça, do desenvolvimento, da reparação e do bem viver. Neste dia, também é comemorado no Brasil o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra (Lei nº 12.987/2014), homenageando a líder quilombola que lutou contra a escravidão.
Nesse marco, a Pulsar Brasil convidou mulheres negras e afro do Brasil, da Argentina e do Chile para refletir sobre produção de conhecimento, reparação, legado e desafios. Contamos com a valiosa participação de Patricio Rivera Moya da produtora de comunicação Morral, do Chile. As avaliações e opiniões das convidadas estão distribuídas em três matérias, sendo esta a segunda delas.
A chegada de mais mulheres negras e afro às universidades não transforma apenas salas de aula, grupos de pesquisa e programas de pós-graduação. Para pesquisadoras latino-americanas, essa presença também muda o horizonte das novas gerações: meninas e jovens negras passam a crescer vendo mulheres como elas produzindo ciência, ensinando, pesquisando, formulando políticas e ocupando espaços de decisão.
Nesta data, refletir sobre esse legado significa olhar para as conquistas que atravessam gerações. Se muitas avós e mães sequer puderam imaginar a universidade pública como um lugar possível, suas filhas e netas começam a encontrar nesses espaços outras mulheres negras que chegaram antes e ajudaram a abrir os caminhos.
Quando estar presente também significa dizer: é possível
Para a jornalista, mestre e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília (UnB), Leonor Costa, esse é um dos principais legados da ampliação da presença de mulheres negras na universidade: permitir que meninas e jovens olhem para espaços historicamente distantes de suas famílias e reconheçam neles uma possibilidade concreta de futuro.
“O legado é mostrar para essas jovens que aquele espaço em que a nossa avó, a nossa mãe não puderam estar, nós hoje podemos estar. É possível estar.”
Leonor lembra que encontrou uma universidade muito diferente quando cursou a graduação, há mais de duas décadas. Naquele período, diz, era possível contar nos dedos quantas pessoas negras havia em muitas salas de aula. Hoje, ao retornar à universidade no mestrado e no doutorado, encontra uma geração de jovens negras e negros que ingressou também por meio das políticas de cotas étnico-raciais. Para ela, essa política foi decisiva para ampliar a presença da população negra nas universidades e tornar visíveis trajetórias que antes pareciam inalcançáveis.
Mas esse horizonte, segundo a pesquisadora, não termina nos muros universitários. Leonor cita o serviço público, a gestão, o Legislativo e a política institucional como espaços em que a presença de mulheres negras também produz referências para as gerações seguintes. Ao recordar a trajetória de Benedita da Silva (PT-RJ), ex-senadora e atual deputada federal, destaca que mulheres que durante décadas estiveram praticamente sozinhas em espaços de poder ajudaram a tornar possível que outras viessem depois.
Em sintonia com Leonor, a professora Nélida Wisneke integrante do Colectivo de Afrodescendientes Misioneros, do Nordeste da Argentina insiste na necessidade de se ocuparem todos os espaços.
“Acredito ser urgente que meninas e jovens mulheres afrodescendentes e não afrodescendentes tenham referências fenotípicas em todas as instituições públicas e privadas — escolas, hospitais, judiciário e poderes político e legislativo — especialmente em todos os níveis de ensino. Mas isso por si só não basta. É necessário que meninas e jovens mulheres recebam uma educação que inclua conteúdo sobre a existência real, concreta e atual de cidadãos afrodescendentes, afroindígenas e indígenas.”
Mas, segundo Nélida, a realidade na província argentina de Misiones não é a de participação crescente de mulheres negras nos espaços acadêmicos.
Outros olhares, novas perguntas
Servidora pública federal da carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais e pesquisadora associada do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Cecília Bizerra chama atenção para outra dimensão dessa transformação. Para ela, quando mulheres negras passam a produzir conhecimento sobre o Brasil, não levam apenas suas trajetórias e experiências para dentro da universidade: levam também perguntas que antes não estavam sendo feitas.
“Quando mulheres negras escrevem, pesquisam, ocupam a universidade, não estamos só ocupando esses espaços com nossos corpos, nossas estéticas, nossas culturas. A gente também está trazendo novos temas à agenda acadêmica, tensionando esse espaço, disputando e propondo outras formas de conhecer.”
Cecília observa que muitas interpretações sobre a população negra foram historicamente produzidas por pesquisadores que jamais experimentaram o racismo em suas próprias vidas. Isso, afirma, contribuiu para apagamentos, estereótipos e leituras limitadas da sociedade brasileira. A produção intelectual de mulheres negras modifica esse cenário porque parte também da experiência vivida, mas não se encerra nela: transforma vivências em categorias de análise, produz conceitos, teorias e novas formas de compreender o mundo.
Por sua vez, a psicóloga chilena Carolina Amaral traz a importância da verdadeira possibilidade de escolha que significa a autêntica liberdade. Ela é pesquisadora, ativista afrodiaspórica no Chile, integrante da organização Kilombo Negrocéntricxs. Atualmente cursa o Doutorado de Estudos Sociais Avançados na Universidade Central do Chile.
“É maravilhoso que meninas e mulheres negras saibam que existem muitos caminhos que podem seguir, sem qualquer desvantagem. Como mulheres negras, elas podem ser portadoras de ofícios, de outras formas de sabedoria. Mas também é lindo ver mulheres negras que são professoras universitárias, pesquisadoras, divulgadoras científicas e escritoras. E isso me faz pensar muito na ideia de antirracismo de Fanon (Frantz), que, em sua essência afirma que parte do antirracismo é libertar as pessoas negras de si mesmas, mas em um sentido muito bonito, porque, fundamentalmente, ser uma pessoa colonizada significa estar confinada a um imaginário limitado do que se pode ser.”
Conhecimento que transforma para além da universidade
É também essa capacidade de deslocar perspectivas que a jornalista, mestra e doutora em Comunicação Social pela UnB Juliana Cezar Nunes, pesquisadora da comunicação negra, quilombola e pública, identifica como uma das principais contribuições das mulheres negras à produção científica. Para ela, são conhecimentos construídos a partir de outras perspectivas e também por metodologias mais coletivas, capazes de transformar não apenas a academia, mas a sociedade.
“Esse pensamento produzido por mulheres negras tem um potencial transformador incrível. Constrói metodologias diferenciadas, agrega muito no espaço da universidade e traz para a sociedade como um todo a possibilidade de produzir ciência a partir dessa perspectiva transformadora.”
As trajetórias das pesquisadoras e docentes apontam para um legado que não pode ser medido apenas pelo aumento do número de diplomas, títulos ou lugares ocupados. Cada mulher negra que chega a uma universidade, conduz uma pesquisa, assume uma função pública ou participa de um espaço de decisão abre caminhos para que muitas outras possam chegar.
Segundo Nélida, ainda falta muito para percorrer na Argentina. “Para isso, devemos continuar lutando para garantir que o conteúdo sobre a experiência afrodescendente seja incluído nos currículos de todas as províncias”, afirma a professora.
Carolina Amaral por sua vez, reforça a trascendência das contribuições das mulheres negras em cada espaço que ocupar, além da Universidade.
“Trata-se de poder dizer: vamos nos libertar das margens muito estreitas dentro das quais nos dizem que podemos ser, o que podemos fazer e a que podemos aspirar. Acho que quanto mais diversa for a representatividade, mais as meninas e jovens negras e indígenas poderão expandir os horizontes de seus próprios desejos.”
Para as novas gerações, essa mudança talvez possa ser resumida justamente na expressão repetida por Leonor: “É possível estar.” Possível estar na universidade, na ciência, na gestão pública, no Parlamento ou onde cada uma mais desejar.
Áudio Carolina Amaral
Áudio Cecília Bizerra
Áudio Juliana Cezar Nunes
Áudio Leonor Costa
Áudio Nélida Wisneke

