
As eleições presidenciais da Argentina serão realizadas no próximo domingo (22) com três candidatos lutando para garantir um lugar em um provável segundo turno no dia 19 de novembro.
Com o eleitorado praticamente dividido em três terços, apenas alguns pontos separam o vencedor das primárias, o economista de extrema direita Javier Milei, do partido Libertad Avanza, da líder do Juntos por el Cambio, Patricia Bullrich, que foi ministra da Segurança do ex-presidente Mauricio Macri, e do candidato oficial da Unión por la Patria e atual ministro da Economia, Sergio Massa. Na primeira votação Milei obteve 29,86% dos votos, seguido por Massa, com 28%, e Bullrich, com 27,28%.
Apesar da curta distância que os separa, os três candidatos chegam em situação muito diferente, o que mantém a incerteza quanto ao próximo resultado. A única coisa que todos consideram certa é que haverá segundo turno.
Por um lado, o candidato oficial – Sergio Massa – joga com o peso de ter que explicar a crise econômica e a crescente pobreza de 40% da população, e ainda propor mudanças com o mesmo discurso de continuidade. A situação tornou difícil para ele responder por que não está fazendo o que está propondo hoje se for eleito.
Após as primárias, Massa promoveu algumas medidas econômicas na busca da recomposição de renda da população, mas não conseguiu ir além do ajuste de 20% de desvalorização que ele mesmo aplicou após perder as primárias como parte do acordo que tem com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Por outro lado, a candidata do macrismo, que deveria representar a elite política e econômica do país, ficou desfocada em seu ponto forte – o discurso clássico da mão de ferro, da segurança e do ajuste econômico – diante da chegada de uma direita muito mais extremista.
Além disso, devido à falta de habilidade argumentativa, Patrícia Bullrich acabou cometendo algumas gafes ao tentar explicar sua proposta econômica e como ela se diferencia do desastre deixado pela função de seu principal referente. Repetir um slogan de campanha sem ser capaz de explicá-lo desgastou sua imagem pública, embora tenha conseguido o apoio da parte da elite política e econômica que ele representa e que permanecia na expectativa.
Por fim, aquele que talvez chegue em melhor posição é Javier Milei, que, mesmo sem nenhuma passagem por cargos públicos, assumiu um discurso radical tanto em questões econômicas quanto sociais, com propostas que, para especialistas, parecem bastante irreais ou perigosamente viáveis. A dolarização da economia, o fechamento do Banco Central e de vários ministérios como o da Saúde, Educação, e Obras Públicas, a liberação da posse de armas de fogo e a possibilidade de os pais poderem renunciar às obrigações paternas são algumas delas.
Milei também se destaca pela grande violência discursiva contra a “casta política”, as mulheres e as diversidades sexuais e os direitos humanos. A postura do candidato o levou, inclusive, a justificar o genocídio de Estado durante a última ditadura militar.
Praticamente fora da disputa, com apenas 2,61% dos votos nas primárias, está a única candidata que não representa nenhuma estrutura de poder econômico ou político, a líder da Frente de Izquierda y de los Trabajadores Unidad, Myriam Bregman.
Com um discurso absolutamente dissonante, em um contexto de discursos eleitorais de direita, a candidata que se define como trostkista, apelou durante a campanha para todas as contradições de seus adversários e demonstrou solidez argumentativa, defendendo sua rejeição aos acordos com o FMI e à lógica dos ajustes e promovendo a redução da jornada de trabalho e o aumento do salário mínimo para cobrir a cesta básica.
Ediçao: Filipe Cabral
