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    Mulheres negras transformam a universidade em espaço de reparação e produção de novos saberes

    Pesquisadoras e docentes defendem que ocupar a Academia é disputar narrativas, reconhecer saberes historicamente invisibilizados e construir caminhos para o bem viver da população negra
    julho 24, 2026Nenhum comentário7 min para ler
    As professoras e estudantes falam da responsabilidade de representar gerações de mulheres negras e indígenas que não tiveram as mesmas oportunidades (Foto: Carolina Amaral / Reprodução)

    Teresa Torres e Sofía Hammoe

    Todo 25 de julho é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e da Diáspora, data que reafirma as pautas em torno do reconhecimento, da justiça, do desenvolvimento, da reparação e do bem viver. Neste dia, também é comemorado no Brasil o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra (Lei nº 12.987/2014), homenageando a líder quilombola que lutou contra a escravidão.

    Nesse marco, a Pulsar Brasil convidou mulheres negras e afro do Brasil, da Argentina e do Chile para refletir sobre produção de conhecimento, reparação, legado e desafios. Contamos com a valiosa participação de Patricio Rivera Moya da produtora de comunicação Morral, do Chile. As avaliações e opiniões das convidadas estão distribuídas em três matérias, sendo esta a primeira delas.

    O tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, promovido pelas organizações de mulheres negras no Brasil, propõe uma reflexão sobre diferentes dimensões dessa luta. Para pesquisadoras brasileiras, a presença cada vez maior de mulheres negras na universidade representa uma das expressões concretas desse processo: ocupar espaços historicamente negados, produzir conhecimento a partir de suas próprias experiências e contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a justiça social.

    Embora reconheçam os avanços conquistados nas últimas décadas, elas lembram que a universidade brasileira ainda carrega marcas profundas da exclusão. Mais do que garantir acesso, defendem que a reparação histórica passa pelo direito de definir quais questionamentos e perguntas serão feitas, quais histórias serão contadas e quais conhecimentos serão reconhecidos como legítimos.

    Já no Chile e na Argentina, os avanços encontram ainda diversos obstáculos, referem as profissionais consultadas. Por uma parte, a causa do racismo estrutural que afeta nossas sociedades contra pessoas negras e indígenas, também nos espaços de conhecimento que historicamente foram negados à população negra.

    Por outro lado, porque segundo elas, nem sempre o saber da prática ou as epistemologias do sul são considerados como uma fonte aceitável ou válida de saber científico.

    Da condição de objeto ao lugar de quem produz conhecimento

    Para a jornalista, mestre e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília (UnB), Leonor Costa, a presença de mulheres negras na pesquisa amplia o olhar sobre demandas historicamente invisibilizadas e fortalece a construção de políticas públicas voltadas para a população negra.

    “A gente costuma dizer que não quer ser só objeto de estudo, objeto de pesquisa para pessoas brancas produzirem conhecimento. Nós queremos nós mesmas produzir conhecimento sobre os vários temas que existem na vida, no mundo e na sociedade.”

    Leonor destaca que mulheres negras pesquisam economia, saúde, educação, direitos humanos, literatura e inúmeras outras áreas, desmontando a ideia de que sua produção intelectual estaria restrita às questões raciais. Para ela, o próximo passo é ampliar sua presença também na docência e na liderança dos grupos de pesquisa.

    Carolina Amaral é psicóloga, pesquisadora e ativista afrodiaspórica no Chile, integrante da organização Kilombo Negrocéntricxs. Atualmente cursa o Doutorado de Estudos Sociais Avançados na Universidade Central do Chile.  Seu trabalho se concentra no antirracismo, nos feminismos negros e na memória histórica afrodescendente.

    Para ela, entrar na universidade é, antes de tudo, um gesto político. “Há uma dívida histórica relacionada ao racismo estrutural que afeta as pessoas negras e indígenas”, afirma, ao explicar que ocupar esses espaços é uma forma de começar a fechar essa desigualdade.

    Disputar os sentidos da e na Academia

    Servidora pública federal da carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais e pesquisadora associada do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Cecília Bizerra afirma que ocupar a universidade é, por si só, um ato político de reparação. Mas, segundo ela, permanecer nesses espaços exige transformar as formas como o conhecimento é produzido.

    Inspirada no intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, Cecília lembra que a missão de pessoas negras na academia é questionar estruturas historicamente coloniais e fazer dialogar diferentes formas de produzir conhecimento.

    “Estar na universidade nunca foi somente sobre conquistar um título. É disputar o que é produzido ali, disputar os sentidos, tensionar as formas como o conhecimento é produzido e trazer para dentro da universidade os saberes produzidos nas comunidades negras, nos terreiros, nas periferias, nos quilombos e nas nossas experiências de mulheres negras.”

    Ela defende que a reparação acontece quando mulheres negras deixam de ser apenas objeto de pesquisa para se tornarem sujeitos que interpretam e narram o mundo a partir de suas próprias vivências. “O bem viver pressupõe uma produção de conhecimento comprometida com a vida, com o cuidado, com a coletividade e com a transformação da realidade”, afirma.

    Nélida Wisneke é docente e integrante do Colectivo de Afrodescendientes Misioneros, do Nordeste da Argentina. Ela, bem como outras pessoas da comunidade afro local, são convidadas a participar da Cátedra Aberta na Faculdade de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade Nacional de Misiones.

    Ela indica que o trabalho cotidiano das mulheres afro tem sido fundamental para mostrar que, além de parte constitutiva da identidade nacional, elas carregam “uma concepção concreta e subjetiva do mundo, da história, da religiosidade, da espiritualidade e da cultura”. Essa concepção, segundo ela, convida a sociedade a compreender a história argentina e sua população como algo heterogêneo, complexo e diverso  uma perspectiva que rompe com narrativas homogêneas sobre a nação.

    “Acredito que também, ao estarmos ali, começamos a gerar marcos teóricos, a gerar posturas que permitem, por um lado, um rigor científico, um rigor a partir dessa desobediência epistemológica, principalmente quando nos situamos na decolonialidade ou no antirracismo, mas ao mesmo tempo honrando esse legado muito antigo e muito longo do saber-fazer e da geração de conhecimento dos subalternos”, afirma Carolina Amaral.

    Recontar a história

    Juliana Cezar Nunes é jornalista, mestra e doutora em Comunicação Social pela UnB, pesquisadora da comunicação negra, quilombola e pública. Ela observa que a ampliação da presença de mulheres negras na universidade tem provocado mudanças que ultrapassam os muros acadêmicos.

    “O pensamento articulado por mulheres negras reconta a história do Brasil a partir da perspectiva dessas mulheres. Essa história oficial vai sendo desconstruída, enquanto surgem novas formas de produzir conhecimento, muito mais coletivas e comprometidas com a transformação da sociedade”.

    Para Juliana, quando mulheres negras pesquisam, constroem metodologias próprias e escolhem novos objetos de investigação, ajudam a desconstruir uma história tradicionalmente narrada pela perspectiva da elite branca masculina.

    Ela ainda enfatiza a importância das intelectuais que abriram caminhos para as novas gerações, como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Givânia Maria da Silva – ativista e liderança quilombola, doutora pela UnB – e sua orientadora, a professora Dione de Oliveira Moura, primeira docente negra da Faculdade de Comunicação da UnB. “São mulheres que fazem toda a diferença e mudam muitas trajetórias”, afirma.

    “Poder nos aproximar, como mulheres afro, ativistas e misioneras, para dialogar com estudantes universitários fala não apenas da coragem e do compromisso das mulheres que habitamos os bairros periféricos e que, muitas, sem terem transitado por esses espaços acadêmicos, encontramos as portas abertas para compartilhar verdades ocultas e existências afro que estiveram ausentes por muito tempo nos livros didáticos desses espaços de estudos superiores e sem registro na historiografia oficial; mas também nos permite perceber a qualidade humana e a qualidade acadêmica com as quais foram forjadas nossas universidades públicas no país”, argumenta Nélida.

    Amaral também identifica o peso simbólico de representar gerações de mulheres negras e indígenas que não tiveram as mesmas oportunidades. “Sinto esse peso e sinto também esse legado”, diz, lembrando de mulheres que, no passado, eram casadas ainda crianças ou assumiam cedo demais tarefas domésticas que as impediam até de concluir o ensino médio. Para ela, sua presença na academia carrega a responsabilidade de abrir caminho para que as próximas gerações tenham mais liberdade de escolha

    Ao reconhecer o legado das pesquisadoras negras, das intelectuais que abriram o caminho e das ancestrais que começaram a luta, além de defender uma universidade comprometida com a pluralidade dos saberes, nossas entrevistadas convergem em uma mesma convicção: reparar injustiças históricas também significa transformar quem produz conhecimento, quais vozes são legitimadas e quais futuros passam a ser imaginados, até se tornarem realidade.

    Áudio Carolina Amaral

    https://agenciapulsarbrasil.org/wp-content/uploads/2026/07/Carolina-Amaral-01.mp3

    Áudio Cecília Bizerra

    https://agenciapulsarbrasil.org/wp-content/uploads/2026/07/Cecilia-Bizerra-01.mp3

    Áudio Juliana Cezar Nunes

    https://agenciapulsarbrasil.org/wp-content/uploads/2026/07/Juliana-Cesar-Nunes-01.mp3

    Áudio Leonor Costa

    https://agenciapulsarbrasil.org/wp-content/uploads/2026/07/Leonor-Costa-01.mp3

    Áudio Nélida Wisneke

    https://agenciapulsarbrasil.org/wp-content/uploads/2026/07/Nelida-Wisneke-01.mp3
    carolina amaral cecília bizerra juliana cesar nunes leonor costa nélida wisneke
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