Sofia Hammoe*
À medida que o domingo se aproxima, uma pergunta pode ajudar a olhar para além dos slogans de campanha: quais compromissos concretos estão por trás da candidatura em que você pretende votar? Comparar propostas, histórico de atuação, metas e compromissos públicos permite verificar o que cada candidato e candidata diz que pretende fazer caso consiga tomar posse.
Escolhemos quatro levantamentos divulgados recentemente que colocam essa discussão em evidência. Eles tratam de temas diferentes como liberdade de expressão, violência política contra candidaturas LGBTQIA+, pautas contrárias aos povos indígenas e saneamento básico. Todas têm um ponto em comum: mostram a importância de transformar discursos gerais em compromissos que possam ser acompanhados pela sociedade.
Liberdade de expressão também entra na agenda eleitoral
Mais de 85 candidaturas de 18 estados e de diferentes partidos aderiram à Carta Compromisso com a Defesa da Liberdade de Expressão e da Segurança de Jornalistas e Comunicadores(as), iniciativa da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores, coordenada pelo Instituto Vladimir Herzog. O documento foi lançado em agosto e reúne dez compromissos para candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.
Entre as responsabilidades assumidas pelos signatários estão condenar agressões contra jornalistas e comunicadores, respeitar o sigilo da fonte, preservar as garantias contra a censura e assegurar acesso igualitário de profissionais da imprensa a informações, atividades de campanha e entrevistas coletivas.
A carta também prevê compromissos contra a desinformação e contra ataques promovidos por apoiadores, além de defender medidas relacionadas à comunicação popular e comunitária.
“A adesão de candidaturas à carta mostra que a proteção de jornalistas e comunicadores precisa fazer parte do compromisso democrático assumido durante as eleições”, afirma Dyego Pregorário, coordenador de Jornalismo e Liberdade de Expressão do Instituto Vladimir Herzog.
As adesões permanecem abertas até 20 de outubro. Para quem deve votar, o documento oferece um parâmetro objetivo: verificar se a candidatura assumiu compromissos públicos relacionados ao direito à informação e à liberdade de expressão. Confira as adesões neste link.
Violência política contra candidaturas LGBTQIA+ nas redes revela outro desafio
Outro levantamento chama atenção para o ambiente digital durante a campanha. A Plataforma Sentinela, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania (IPC), analisou mais de 1 milhão de interações no Instagram de candidaturas que autorizaram o monitoramento. Deste universo, 307.185 comentários considerados potencialmente
A Sentinela analisou cada um deles em quatro dimensões: se há violência, quem é o alvo, se existe um componente LGBTfóbico e se esse componente atinge diretamente a candidatura monitorada. Ao final dessa análise, 13 mil comentários foram classificados como ofensivos com alvo definido, ou seja, dirigidos a uma pessoa ou candidatura identificável.
violentos passaram por análise aprofundada.
Também foi possível analisar padrões de recorrência e sinais de atuação coordenada. O estudo identificou mais de 11 mil contas diferentes envolvidas nesses ataques. Em 1.267 casos, os mesmos perfis voltaram a atacar uma mesma candidatura em diferentes publicações. Os dados parciais também mostram que 92,7% das agressões tiveram candidaturas de mulheres como alvo e que 83,6% atingiram candidaturas negras.
Um dos episódios analisados envolveu 63 contas que reproduziram uma mesma mensagem em aproximadamente três minutos. Segundo a Sentinela, a repetição do conteúdo por diferentes perfis em um intervalo tão curto constitui um sinal que pode indicar atuação coordenada e merece investigação.
Entre os agressores, a plataforma identificou candidaturas vinculadas a três partidos (Novo, PSDB e PL), entre autores de comentários classificados como ataques transfóbicos. Esse dado amplia o olhar sobre a violência política nas redes e levanta questões sobre a participação de pessoas que já ocupam espaços institucionais na produção ou disseminação desse tipo de conteúdo.
A metodologia procura reduzir falsos positivos: comentários ambíguos não são contabilizados. Os números, portanto, são parciais e continuam sendo atualizados durante o processo eleitoral.
O levantamento também recoloca uma questão sobre responsabilidade política no ambiente digital: quais candidaturas condenam ataques discriminatórios e quais estabelecem regras para seus apoiadores e equipes de campanha?
Antes do país ser chamado de Brasil
Povos indígenas são originários desta terra, de Norte ao Sul, do Leste ao Oeste populações milenárias habitam o continente. Porém alguns dos candidatos e candidatas a cargos eletivos nessas eleições têm um histórico de atuação contra os direitos dos povos indígenas no Congresso Nacional.
Segundo vem acompanhando o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), junto a diversas organizações e etnias, se trata de candidatos que ocupam ou já ocuparam cargos na Câmara e no Senado e que apresentaram proposições e deram votos com impacto negativo direto aos povos indígenas.
Reunidos, por estado, o Cimi listou os parlamentares (e atuais postulantes) que mais apresentaram proposições classificadas como anti-indígenas pela organizaçãonos últimos oito anos.
Conheça os nomes da sua região:
Norte: https://www.instagram.com/p/Dd9gM5YHIba/?stkn=MXZ5bzE1NTlpdHdiMA==
Nordeste: https://www.instagram.com/p/Dd9ttrMmJVS/?stkn=OTlkZGsxNXZ6Z2di
Centro-oeste: https://www.instagram.com/p/Dd9Zao5kZav/?stkn=aDF4NnF3MTF4OTAy
Sudeste: https://www.instagram.com/p/Dd9Sd6nkSJJ/?stkn=bTR0OWxsYXlhMTY4
Sul: https://www.instagram.com/p/Dd9LqIpETBG/?stkn=MW1xemE5dGVwaXBrNQ==
Esse levantamento foi feito por meio da plataforma Congresso Anti-Indígena, nela, utilizando o filtro “candidaturas em 2026”, você pode ver quais parlamentares que atuaram em pautas relacionadas aos povos indígenas estão concorrendo nas eleições de 2026, seja essa atuação desfavorável ou favorável aos direitos indígenas.
Acesse cai.cimi.org.br e faça a sua consulta!
Saneamento: promessa precisa virar meta
No campo das políticas públicas, o saneamento oferece outro exemplo da diferença entre mencionar um problema e apresentar um compromisso verificável.
Estudo do Instituto Trata Brasil e da GO Associados avaliou os planos de governo de 62 candidatos considerados competitivos para os governos estaduais. A universalização do saneamento aparece em 54 documentos, equivalentes a 87% da amostra. Entretanto, apenas 26% apresentam metas consideradas tangíveis. A governança de dados aparece em 24% dos planos.
Somente 13 planos, ou 21% dos analisados, foram classificados pelo estudo como abrangentes. Outros 44 ficaram na categoria transversal, enquanto cinco foram considerados superficiais.
O contraste ganha importância diante dos indicadores nacionais. Segundo os dados apresentados pelo Trata Brasil com base no SINISA 2024, 84,1% da população tem acesso à água potável, enquanto 56,7% conta com coleta de esgoto. O Marco Legal do Saneamento estabelece metas de universalização para 2033.
Isso significa que, ao analisar uma proposta, o eleitor pode ir além da pergunta “o candidato defende saneamento?”. Vale verificar quanto pretende investir, quais metas estabelece, em que prazo, como pretende financiar as obras e quais mecanismos de acompanhamento propõe.
O que procurar antes de votar
Os quatro casos apontam para uma mesma forma de acompanhar a eleição: comparar aquilo que as candidaturas dizem com compromissos que possam ser conferidos posteriormente.
No caso da liberdade de expressão, é possível verificar adesões a documentos públicos e compromissos relacionados à proteção da imprensa. Na violência política, observar a postura das campanhas diante de ataques e conteúdos discriminatórios. No saneamento, conferir se existem metas, recursos, prazos e mecanismos de fiscalização.
Perguntas simples antes de confirmar seu voto: qual problema essa candidatura pretende enfrentar? Qual é a proposta concreta? Existe uma meta mensurável? Há prazo para cumpri-la? De onde virão os recursos? Como a população poderá acompanhar os resultados?
Para além das declarações, esse tipo de verificação permite conhecer as diferenças entre candidaturas e avaliar quais compromissos são efetivamente apresentados ao público.
Em uma eleição que definirá governos e legislativos para os próximos anos, conhecer o conteúdo das propostas é também uma forma de acompanhar o mandato depois das urnas. O voto encerra a campanha, mas não encerra a participação, nem a cobrança, necessárias para defender a Democracia.
* Com informações do Instituto Vladimir Herzog, Plataforma Sentinela, Instituto Trata Brasil e Cimi

