Teresa Torres e Sofía Hammoe
Discutir quem consegue chegar aos espaços de poder também significa perguntar quem ainda encontra obstáculos para estar neles. Para mulheres negras, essas barreiras atravessam a entrada nos partidos, o acesso a recursos para campanhas, a conquista dos mandatos e, depois de eleitas, as condições para exercer a representação política com segurança. Mas ampliar essa presença, segundo pesquisadoras e professoras latino-americanas, não significa apenas mudar quem ocupa as cadeiras, e sim como as ocupa para poder transformar também as políticas, prioridades e as perspectivas que orientam decisões.
A reflexão encerra a série especial da Agência Pulsar Brasil pelo 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana, Caribenha e da Diáspora. No Brasil, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Mulheres negras e afro do Brasil, da Argentina e do Chile refletem sobre produção de conhecimento, reparação, legado e desafios ao longo de três matérias, sendo esta a terceira delas.
A produção da reportagem contou com a valiosa participação de Patricio Rivera Moya da produtora de comunicação Morral, do Chile.
Sob o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, as entrevistadas relacionam a luta por representação política a uma agenda mais ampla de reparação, garantia de direitos e construção de uma sociedade comprometida com a vida.
Apesar da violência este lugar é meu
Jornalista, mestra e doutora em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), Juliana Cezar Nunes, pesquisadora da comunicação negra, quilombola e pública, lembra que a disputa das mulheres negras pelos espaços de poder tem uma longa história no Brasil e na América Latina. Lideranças comunitárias, militantes e candidatas enfrentaram e continuam enfrentando obstáculos na política institucional, no poder público, na iniciativa privada, nos sindicatos e até mesmo nos movimentos sociais.
Para Juliana, reconhecer a dimensão estrutural dessas barreiras é fundamental. Isso inclui dar visibilidade às mulheres negras que fazem política e denunciar a violência política de gênero e raça, sem tratá-la como uma sequência de episódios isolados.
“Há uma intencionalidade em se ameaçar as mulheres, as mulheres negras especialmente, e dizer que esse lugar não é o lugar delas.”
Juliana recorda os assassinatos de Marielle Franco e da liderança quilombola Mãe Bernadete como expressões extremas de uma violência que busca silenciar não apenas aquelas que são atingidas diretamente, mas intimidar outras mulheres que atuam como lideranças comunitárias ou representantes políticas. Para ela, jornalistas e comunicadores também têm responsabilidade nesse enfrentamento, ao conectar essas violências, dar visibilidade às lideranças e mostrar seu caráter histórico e estrutural.
Ao mesmo tempo, Cezar Nunes identifica na articulação coletiva uma força capaz de romper esse ciclo. Cita experiências como o Festival Latinidades, em Brasília, e as mobilizações do Julho das Pretas como espaços de formação, encontro e fortalecimento de mulheres que hoje ocupam lugares de decisão no Estado, na sociedade civil e em outras instituições.
“Esse olhar que as mulheres negras trazem quando estão ocupando espaços de poder ou quando estão na academia é um olhar generoso, aguerrido e muito transformador.”
A professora Nélida Wisneke integrante do Colectivo de Afrodescendientes Misioneros, do Nordeste da Argentina sugere que é preciso que os partidos políticos articulem com os movimentos de pessoas afroargentinas, especialmente com as mulheres, mas também que as organizações devem se animar e procurar por esses espaços.
Acredito que as ativistas afroargentinas devem criar conexões com diferentes partidos e grupos políticos, fazer com que nossas vozes sejam ouvidas e exigir ser consideradas como candidatas quando as listas estiverem sendo elaboradas. Precisamos dar esse passo.
Da candidatura ao mandato, as barreiras permanecem
Para Leonor Costa, mestra e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania pela UnB, uma das primeiras barreiras aparece antes mesmo das urnas: dentro dos partidos políticos. É ali que se definem candidaturas, apoios e a distribuição de recursos necessários para que uma campanha tenha condições efetivas de disputar o voto.
Leonor chama atenção para as desigualdades que ainda marcam o investimento nas candidaturas de mulheres negras e afirma que a dificuldade não termina com a eleição. Quando chegam aos parlamentos, elas encontram espaços ainda majoritariamente masculinos e brancos e precisam enfrentar diferentes formas de intimidação e violência política.
“Essas mulheres, quando são eleitas, precisam minimamente ter segurança para que possam exercer o seu mandato. Elas precisam ter condições para exercer este mandato e ter uma incidência significativa naquele espaço que ainda é muito branco e muito masculino.”
Para Leonor, ampliar a presença de mulheres negras nas câmaras municipais, assembleias legislativas, Câmara dos Deputados, Senado Federal e também em outros espaços de decisão tem uma consequência concreta: ampliar a participação de quem conhece determinadas desigualdades na formulação das respostas do Estado.
Direitos como educação, saúde, justiça reprodutiva e acesso ao mercado de trabalho entram nessa agenda. “Se nós temos mais mulheres negras ocupando esses espaços, temos mais parlamentares pensando em ações que vão se reverter em políticas públicas para as mulheres negras”, afirma.
Nélida insiste também na importância da representação dos diversos setores da sociedade em todos os âmbitos e especialmente nos mais visíveis, como são os da política, para encorajar mais mulheres e meninas a não se conformarem e buscar melhores destinos.
Ter uma de nós como modelo nesses espaços de formulação de políticas e tomada de decisões permitirá nos tornarmos visíveis como parte do povo argentino e fará com que nossas meninas e jovens mulheres acreditem que um futuro promissor também é possível para elas.
Mais do que ocupar, “enfeitiçar a estrutura”
Servidora pública federal da carreira de Desenvolvimento de Políticas Sociais e pesquisadora associada do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Cecília Bizerra retoma uma ideia que atravessou sua participação nesta série: a presença de mulheres negras precisa ser capaz de transformar as estruturas que historicamente as excluíram.
Assim como na universidade, ela defende que chegar aos espaços institucionais de poder não deve significar simplesmente reproduzir práticas já existentes. A contribuição está também em levar outras experiências, perspectivas e formas de compreender o Brasil para o centro das decisões.
“Precisamos ampliar nossa presença nos espaços de decisão, nos espaços institucionais de poder, mas não apenas para ocupar esses espaços repetindo o que já vem sendo feito ao longo dos anos. Mas trazendo novas perspectivas, novos olhares e pensando no bem viver, mirando a conquista do acesso a direitos comprometidos com a vida.”
Inspirada no pensamento de Nêgo Bispo, Cecília usa uma expressão que sintetiza essa ambição: “enfeitiçar a estrutura”. Para ela, conhecimento, instituições e poder devem servir para produzir mais igualdade, ampliar direitos e melhorar a vida. É nesse sentido que relaciona a participação de mulheres negras à possibilidade de uma compreensão “mais completa, mais honesta, mais humana e verdadeira” sobre a sociedade brasileira.
A psicóloga chilena Carolina Amaral é pesquisadora, ativista afrodiaspórica no Chile, integrante da organização Kilombo Negrocéntricxs. Atualmente cursa o Doutorado de Estudos Sociais Avançados na Universidade Central do Chile. Ela coincide com Cecília e mergulha na necessidade de participação das mulheres negras e afro nos espaços de poder, sempre que defendam o antirracismo e o bem viver e que entendam os problemas cotidianos que suas comunidades enfrentam e que sejam detentoras desse conhecimento.
Para Carolina, “nem toda representação baseada na identidade representará um avanço verdadeiramente decolonial e antirracista para as comunidades em um sentido mais amplo” e coloca como exemplo a Barack Obama, “o primeiro e único presidente negro dos Estados Unidos, que cometeu grandes atrocidades durante seu mandato, tanto contra imigrantes nos Estados Unidos quanto com os bombardeios que realizou nos conflitos armados com o Oriente Médio.”
Portanto, acho que sempre precisamos acrescentar uma ressalva: é bom que haja líderes de comunidades negras, indígenas, da classe trabalhadora e outras nesses espaços institucionais, mas não basta simplesmente carregar essa identidade. Essa identidade precisa ser profundamente politizada e colocada a serviço da comunidade. Penso que este é um ponto importante a considerar: que a vaga reservada não basta; essa vaga deve ser ocupada por alguém que tenha um desejo genuíno de fazer algo maior do que si próprio e que não queira perpetuar a mesma lógica que, dia após dia, torna a sua própria comunidade mais precária.
Mulheres inventam todos os dias uma nova forma de viver
A mensagem comum aqui é que representação importa, mas as condições dessa representação também importam. Entre conseguir disputar uma candidatura, chegar aos espaços de decisão, permanecer neles com segurança e ter força para transformar demandas históricas em direitos, há barreiras que continuam de pé.
Cada 25 de Julho reivindica, também, condições para participar das decisões e transformar estruturas, fazendo da reparação, do bem viver e da democracia horizontes concretos para toda a sociedade, sobretudo em períodos elitorais.
Não é apenas um dia, mas um hito que lembra cada passo e cada conquista que as mulheres negras e afro do continente deram e dão há séculos construindo o caminho. Carolina Amaral coloca um exemplo disso.
Eu gosto muito de Clara Han, uma socióloga coreano-estadunidense que fez muita pesquisa etnográfica aqui no Chile. Ela disse em uma entrevista que a revolução ou a mudança mundial não acontece como uma grande explosão em todos os lugares, senão que todos os dias, mulheres, cuidadoras e lideranças comunitárias inventam uma nova forma de viver.
Áudio Carolina Amaral
Áudio Cecília Bizerra
Áudio Juliana Cezar Nunes
Áudio Leonor Costa
Áudio Nélida Wisneke

