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    Direitos Humanos

    Plataformas educacionais coletaram dados de crianças e repassaram a empresas de publicidade, denuncia organização

    Segundo investigação da Human Rights Watch, estudantes brasileiros eram monitorados dentro das salas de aula virtuais e enquanto navegavam pela internet fora do horário de aula
    abril 3, 2023Nenhum comentário5 min para ler
    Regulação prioriza saúde integral e bem-estar de crianças e adolescentes sobre o lucro das big techs (Foto: Pixabay)

    Redação

    Sete sites educacionais direcionados a estudantes de São Paulo e Minas Gerais coletaram dados pessoais de crianças e adolescentes e os repassaram a empresas de publicidade. A denúncia foi feita nesta segunda-feira (3) pela Human Rights Watch (HWR), organização internacional que investiga casos de violações de direitos humanos.

    Segundo a organização, as informações foram apuradas em novembro de 2022 e revisadas em janeiro de 2023. A HRW explica que as plataformas foram contratadas pelos governos estaduais para dar apoio aos estudantes durante a pandemia de covid-19 e permanecem em uso até hoje.

    Os sites são: Estude em Casa, Centro de Mídias da Educação de São Paulo, Descomplica, Escola Mais, Explicaê, MangaHigh e Stoodi.

    De acordo com a denúncia, as plataformas não apenas monitoraram os estudantes dentro das salas de aula virtuais, como também os acompanharam – através de tecnologias de rastreamento – enquanto navegavam pela Internet fora do horário de aula. A investigação aponta, inclusive, que cinco delas aplicaram técnicas de rastreamento “particularmente intrusivas”, vigiando os estudantes “de forma invisível e de maneiras impossíveis de se evitar ou se proteger”.

    Leia também: Proteção de dados pessoais é reconhecida como direito constitucional

    A HWR detalha que um dos sites chegou a aplicar uma técnica que permitia que terceiros assistissem e registrassem o comportamento dos estudantes na web, acompanhando até mesmo cliques de mouse e movimentos em sites. Segundo a HWR, os dados coletados pelas plataformas foram remetidos a empresas especializadas em publicidade comportamental e permitem tanto identificar “padrões de usuário” (preferências, personalidades, comportamentos) como elaborar estratégias de direcionamento de conteúdo personalizado para crianças e adolescentes.

    De acordo com a organização, tais práticas “violam de forma inadmissível” a privacidade dos estudantes “pois não são ações proporcionais ou necessárias para que esses sites funcionem ou forneçam conteúdo educacional”.

    “Estas ações também podem violar outros direitos de crianças e adolescentes se essas informações forem usadas para orientá-las em direção a consequências prejudiciais ou contrárias aos seus interesses. Essas práticas também desempenham um papel significativo na formação das experiências online de crianças e adolescentes e na determinação das informações que eles acessam, em um momento de suas vidas em que suas opiniões e crenças correm alto risco de interferência manipuladora”, acrescenta.

    A HWR ainda chama atenção para o fato de que os estudantes não tinham como se opor à vigilância das plataformas porque elas foram adotadas justamente durante o fechamento das escolas devido à pandemia da Covid-19.

    “Como esses sites foram temporariamente oferecidos gratuitamente e amplamente divulgados às escolas pelo governo, muitas adotaram seu uso. Era impossível para muitas crianças optarem pelo não rastreamento sem abrir mão do aprendizado formal como um todo”, pontua.

    Leia também: Como conciliar o combate à desinformação na internet com a proteção de dados pessoais?

    Proteção

    Além de estar previsto no artigo 5º da Constituição Federal – que aborda os chamados “direitos fundamentais” – o direito à privacidade também consta na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, acordo internacional ratificado pelo Brasil.

    Na opinião da Human Rights Watch a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) deveria não só impedir os ataques à privacidade de crianças e adolescentes como também exigir que as empresas e governos excluam os dados dos estudantes afetados e impedir que continuem usando tais informações para fins não relacionados à oferta de educação.

    “Os legisladores deveriam promover adequações na lei para estabelecer regras abrangentes de proteção de dados infantis, incluindo a proibição de publicidade comportamental e o uso de técnicas de rastreamento intrusivas para crianças e adolescentes. Essas regras também deveriam exigir que todos os atores que ofereçam serviços online para crianças e adolescentes – incluindo aprendizado virtual – forneçam os mais altos níveis de proteção de dados e de privacidade às crianças e adolescentes”, afirma a organização.

    Leia também: Moraes defende que redes sociais sejam consideradas empresas de comunicação

    Respostas

    De acordo com a HWR, os resultados e evidências técnicas da investigação foram compartilhados com as empresas e as secretarias de educação dos governos de São Paulo e Minas Gerais.

    Segundo a organização, após a comunicação, a Secretaria de Educação de Minas Gerais removeu todo o rastreamento de anúncios do Estude em Casa em 24 de março de 2023. Já o governo de São Paulo não respondeu aos quatro pedidos de esclarecimento enviados e tampouco respondeu à oferta de discutir as descobertas antes da publicação da denúncia.

    Ainda conforme a HWR, a Descomplica, a Escola Mais, Explicaê e Revisa Enem não responderam aos pedidos de esclarecimento da organização.

    A Stoodi, por sua vez, reconheceu as conclusões da ONG, mas alegou que: suas práticas de dados eram para “melhorar a experiência do usuário”; que seus usuários tinham 16 anos ou mais; que não vendia dados pessoais a terceiros; e que não mantinha contrato ativo com instituição pública de ensino desde 2021.

    Quando contatada em dezembro de 2022, a empresa britânica Blue Duck Education Limited – responsável pela criação do MangaHigh – solicitou detalhes da nova análise técnica, porém não respondeu a HWR após o envio das evidências e resultados.

    *Com informações da Human Rights Watch

    criança e adolescente dados educação plataformas
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    Filipe Cabral

    Repórter da Agência Pulsar Brasil.

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