REDAÇÃO
Discutir a comunicação como direito humano e elemento estratégico para a democracia foi o tema do undécimo episódio do programa Segundamente. Mediado por Geralda Cunha, o debate abordou a democratização dos meios, o papel das rádios comunitárias, o enfrentamento à desinformação e os desafios impostos pelas plataformas digitais.
A produção é da Associação Mulheres na Comunicação (AMC) que continua com mais uma temporada do projeto que discute temas do cenário político em ano eleitoral. Pulsar Brasil se soma à divulgação do programa como parte da cobertura das eleições 2026 no país.
Em outubro deste ano o país escolherá entre candidatas e candidatos a presidente ou presidenta, governadores e governadoras, senadores e senadoras, além de deputados e deputadas federais e estaduais.
Ao abrir a conversa, Geralda destacou a importância de ampliar o acesso à informação e fortalecer a participação social no debate público.
“Comunicação é um direito humano, e a gente precisa mostrar para as pessoas a importância da comunicação nas nossas vidas”, disse a apresentadora para começar a conversa que reuniu mulheres do jornalismo, da pesquisa e da comunicação popular.
Democratização dos meios e pluralidade
A jornalista Kátia Marko, editora-chefe do Brasil de Fato no Rio Grande do Sul e coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), apresentou a trajetória de mobilização pela democratização dos meios e defendeu políticas públicas para garantir pluralidade de vozes.
“A comunicação comunitária e popular é fundamental, ela existe para transformar a realidade, para trazer a voz das comunidades, para trazer a voz daqueles que não estão nos grandes meios de comunicação.”
Durante a conversa, Kátia também apresentou os a Plataforma com 20 pontos para uma comunicação democrática, que reúne propostas relacionadas à regulamentação das concessões públicas, fortalecimento das mídias comunitárias e populares, regulação das plataformas digitais, soberania tecnológica, educação midiática e proteção de jornalistas e comunicadores.
“Esses 20 pontos sintetizam os mais de 30 anos de luta aí do FNDC. E é nessa luta que todas nós estamos envolvidas aí há tantos anos. Essa plataforma vem sendo construída, então a cada eleição ela vai sendo renovada, e vão sendo incluídos pontos importantes da atual conjuntura.
A plataforma foi debatida nas caravanas que realizadas esse ano em Porto Alegre, em Belém, Recife, São Paulo, realizados pelos comitês nessas capitais e foi aprovada na plenária nacional no dia 1o de agosto em São Paulo.
Desinformação e educação midiática
A pesquisadora e professora da Universidade Federal do Pará, Elaide Martins, abordou a relação entre tecnologia, soberania digital e desinformação. Segundo ela, a sociedade precisa compreender o funcionamento das plataformas, a atuação dos algoritmos e a circulação de conteúdos falsos, para criar algum tipo de imunidade.
“A gente precisa formar cidadãos que compreendam como é que esses dados pessoais são coletados, que entendam inclusive como é que as bodas digitais operam, que entendam que a gente não tem absolutamente nada gratuito nas redes, que a gente paga tudo com os nossos dados e é um preço altíssimo.”
Elaide também destacou a necessidade de políticas públicas de inclusão digital que ultrapassem o simples acesso a dispositivos e à internet, incorporando formação crítica para que as pessoas compreendam como seus dados são utilizados e como funcionam as plataformas digitais.
Rádios comunitárias e participação popular
Representando a comunicação comunitária no Ceará, Rosa Gonçalves, comunicadora popular e produtora do programa “Vida de Mulher” da Rádio Comunitária de Independência, ressaltou o papel das rádios locais na valorização das comunidades, na circulação de informações e na participação das mulheres.
“A rádio comunitária tem sido essa comunicação importante que vai ajudando as pessoas a encontrar seu espaço de vez e de voz na comunidade.”
Rosa também chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pelas rádios comunitárias, entre elas o acesso precário à internet, a falta de investimentos e a baixa participação desses veículos em políticas públicas de comunicação.
“O problema é que a comunicação pública e a publicidade estão cada vez mais distribuídas para os sites, para as plataformas de vídeo, serviços digitais, enquanto a rádio comunitária continua tendo um alcance principal territorial. Se os governos passam a considerar apenas métricas digitais para decidir onde colocar informação ou publicidade institucional, as rádios comunitárias pode ficar estruturalmente prejudicada, mesmo tendo essa importância social local.”
Comunicação local e formação
Já Rose Castilhos, jornalista e comunicadora da Rádio Comunitária Tupancy, no Rio Grande do Sul, falou sobre os desafios enfrentados pelos veículos comunitários e a necessidade de formação para o uso das novas tecnologias. Ela destacou ainda experiências de aproximação entre rádio, escolas e juventude.
“A luz no fim do túnel é educação. É pela educação que nós temos que conquistar os professores e também os alunos.”
A comunicadora também relatou a atuação da rádio em debates de interesse da comunidade, mostrando como os veículos locais podem ampliar o acesso à informação e estimular a participação dos moradores em questões que afetam diretamente seus territórios.
Rose também colocou a necessidade de revisar a legislação sobre comunicação em geral e sobre as mídias comunitárias em particular.
“A gente pode ver que a disputa da comunicação, ela se dá em todos os campos. Não tem partido que possa dizer: ´Ah, eu sou a favor, eu sou contra´. Não. Ali tem os interesses e com avanço das plataformas digitais, as rádios comunitárias, ainda estão engatinhando. Até porque não conseguem nem regulamentar aquelas leis todas que a gente já conseguiu mandar para o Congresso. Eu acho que tem mais de 20 projetos de lei tratando da questão da comunicação. A rádio comunitária praticamente ainda continua engatinhando na questão financeira, porque é uma lei aí que nos nos tranca. A importância dentro do campo político é a vontade política.”
Vozes para uma comunicação mais plural
Ao longo da roda de conversa, as participantes defenderam o fortalecimento da comunicação pública, comunitária e popular como forma de ampliar a diversidade de vozes no espaço público. Também discutiram a necessidade de regulamentação das plataformas digitais, combate à desinformação, educação midiática e políticas que garantam condições de sustentabilidade para veículos comunitários.
O episódio reafirmou a proposta de promover debates sobre temas relacionados à cidadania e à informação, especialmente em um contexto de decisões políticas e eleitorais.
O Segundamente é uma produção da Associação Mulheres na Comunicação, com apresentação de Geralda Cunha e com participação de especialistas. A equipe de produção está composta por Bruna Porto e Rayi Kena.
Novos episódios da temporada 2026 serão lançados nas próximas semanas no canal de YouTube da AMC.
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