REDAÇÃO
O que está por trás das promessas de mais hospitais, redução de filas, tecnologia e ampliação do atendimento em saúde? Essa foi uma das questões centrais do décimo episódio do programa Segundamente, dedicado ao tema “Saúde nas Eleições 2026: o que os candidatos estão propondo e o que o eleitor precisa observar antes de decidir o voto?”.
A Associação Mulheres na Comunicação (AMC) continua com mais uma temporada do projeto Segundamente, série que discute temas do cenário político em ano eleitoral.
Pulsar Brasil se soma à divulgação do programa como parte da cobertura das eleições 2026 no país.
Em outubro deste ano o país escolherá entre candidatas e candidatos a presidente ou presidenta, governadores e governadoras, senadores e senadoras, além de deputados e deputadas federais e estaduais.
Apresentado por Geralda Cunha, o programa reuniu a enfermeira, doutora em Enfermagem, pesquisadora na área de qualidade e segurança do paciente e sindicalista Cyanea Ferreira Lima Gebrim e a artista plástica, arteterapeuta aposentada, conselheira da AMC e paciente oncológica em cuidados paliativos Ivone Cunha. A conversa abordou o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), a relação entre as redes pública e privada, a terceirização de serviços, a gestão dos recursos, o uso da inteligência artificial e a humanização do atendimento.
SUS vai além do atendimento hospitalar
Ao falar sobre a importância do SUS, Cyanea destacou que o sistema não se restringe ao atendimento hospitalar e aos serviços de caráter curativo. Segundo ela, a atuação inclui ações de prevenção, vacinação, vigilância sanitária e fiscalização de alimentos, medicamentos, estabelecimentos e serviços.
“A pessoa fala `Ah, eu não uso o SUS´ e não percebe que naquele restaurante que costuma ir, ali teve uma ação do SUS. No aeroporto, quando você vai fazer sua viagem, ali teve ação do SUS. O SUS não atua só na parte curativa, quando a pessoa está doente, ele atua principalmente na área preventiva e de fiscalização, por exemplo, de equipamentos.”
Para a pesquisadora, problemas relacionados à gestão e ao financiamento não devem ser confundidos com a estrutura do sistema. Na avaliação apresentada durante o programa, parte das dificuldades enfrentadas pelos usuários está relacionada à forma como os recursos são administrados, aplicados e fiscalizados.
A experiência de Ivone acrescentou ao debate a perspectiva de quem depende de tratamento contínuo. Paciente oncológica há mais de uma década, ela relatou situações de demora na autorização de medicamentos e procedimentos por parte do plano de saúde. Em uma ocasião, contou ter recorrido à Justiça para obter uma medicação que não estava prevista no rol de cobertura.
“Você já está numa situação fragilizada e, no caso do câncer, que não pode esperar, vem uma situação dessa.”
Ivone também relatou experiências de atendimento que considerou precárias e pouco humanizadas. Para ela, a escolha dos gestores é um dos fatores determinantes para a qualidade dos serviços.
“Precisa saber escolher a pessoa que vai colocar na gestão, olhando para a população que precisa realmente do atendimento.”
Segundo a artista, a indicação para cargos de direção deve levar em conta capacitação, preparo técnico e compromisso com a população.
Terceirização e condições de trabalho
A participação da iniciativa privada e a terceirização de serviços também estiveram entre os temas discutidos. Cyanea questionou a ideia de que a transferência de serviços para organizações privadas seja, por si só, capaz de solucionar problemas como filas e demora no atendimento.
“Terceirizar não vai resolver os problemas. Isso pode impactar na assistência lá na ponta daquele paciente e também no impacto econômico da saúde. O que resolve o problema é uma boa gestão.”
A enfermeira também chamou atenção para os efeitos dos diferentes modelos de contratação sobre os trabalhadores da saúde. Segundo ela, relações de trabalho precarizadas podem contribuir para o aumento da sobrecarga e repercutir na qualidade da assistência prestada à população.
O debate também abordou a saúde mental dos profissionais. Cyanea relacionou as condições de trabalho ao adoecimento dos trabalhadores e destacou a situação da enfermagem, área na qual desenvolveu pesquisa sobre a síndrome de burnout. (NdE: estado de esgotamento físico e emocional relacionado ao trabalho, geralmente provocado por situações prolongadas de estresse ocupacional.)
Tecnologia como ferramenta, não substituta do cuidado
A tecnologia também entrou na discussão, especialmente a inteligência artificial, a telemedicina e os sistemas digitais de informação. As participantes reconheceram o potencial dessas ferramentas para ampliar o acesso aos serviços, mas ressaltaram que elas não devem substituir o acompanhamento humano.
Ivone afirmou que a teleconsulta pode ser útil em determinadas situações, mas defendeu que seja utilizada como complemento ao atendimento presencial.
“É tão bom quando você tem um profissional que te acompanha, que sabe da sua história, que você se sente acolhida e segura.”
As entrevistadas também destacaram as desigualdades regionais e as dificuldades enfrentadas por pessoas que ainda não têm acesso adequado à internet ou aos serviços de saúde. Nesse contexto, Cyanea ressaltou o papel da Estratégia Saúde da Família e da atenção básica no acompanhamento de doenças crônicas e na prevenção.
Saúde da mulher, envelhecimento e cuidados paliativos
Na parte final do programa, a discussão se voltou para a saúde das mulheres, o envelhecimento da população e os cuidados paliativos. Cyanea alertou também para procurar saber quais as bandeiras que defendem os e as candidatas.
“Uma coisa que nós mulheres precisamos ver, principalmente nas propostas dos nossos candidatos, como que esse candidato trata o feminicídio, se ele trata como um crime comum ou se ele não dá importância para aquilo. E quando a gente fala de saúde, a gente envolve também a saúde da mulher, e a violência. Nós trabalhadores da saúde também estamos sofrendo muita violência, principalmente nós mulheres da saúde.”
Fortalecimento do SUS e participação da sociedade nos conselhos de saúde foram as recomendações que as entrevistadas deixaram para exigir a candidatos e candidatas. Ivone ainda ressaltou que o acesso à informação deve vir acompanhado da fiscalização das políticas públicas.
Desinformação e fiscalização
Ainda na área das campanhas eleitorais, também na área da saúde lembramos a penalização da circulação de conteúdos falsos no ambiente digital. Desinformação, fake news e deepfakes relacionados ao processo eleitoral podem estar sujeitos a decisões da Justiça Eleitoral, inclusive com determinação de retirada e aplicação de multa, conforme o caso.
Para o cidadão ou a cidadã que encontra um anúncio ou conteúdo suspeito, a orientação é preservar as provas e denunciar pelos canais oficiais: nos sites do Ministério Público Federal (MPF) e Estadual, pela ouvidoria dos Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) e pelo aplicativo Pardal, desenvolvido pelo TSE, disponível para Android e IOS. O nome do denunciante não é divulgado.
O Segundamente é uma produção da Associação Mulheres na Comunicação, com apresentação de Geralda Cunha e com participação de especialistas. A equipe de produção está composta por Bruna Porto e Rayi Kena.
Novos episódios da temporada 2026 serão lançados nas próximas semanas no canal de YouTube da AMC.
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