REDAÇÃO
A Associação Mulheres na Comunicação continua com mais uma temporada do projeto Segundamente, série que discute temas do cenário político em ano eleitoral.
Pulsar Brasil se soma à divulgação do programa como parte da cobertura das eleições 2026 no país.
O que as eleições do próximo mês de outubro têm a ver com a violência doméstica? É a pergunta que permeia o nono episódio do programa apresentado por Geralda Cunha. Para achar possíveis respostas ela conversou com Márcia Pelá, educadora, geógrafa, pesquisadora, presidenta da Associação Cultura, Cidade e Arte, ACCA.
Márcia idealizou a Rede Conecta apresentada no mês de agosto, para organizar informações sobre proteção, acolhimento, saúde, justiça e autonomia das mulheres na região. A partir desse mapa, o diálogo foi atravessando olhares sobre violência, renda, cuidado, congresso, representação política e controle social, na Grande Goiânia.
Em outubro deste ano o país escolherá entre candidatas e candidatos a presidente ou presidenta, governadores e governadoras, senadores e senadoras, além de deputados e deputadas federais e estaduais. Mas nem todas as candidaturas levam na sua plataforma as demandas para combater a violência doméstica e assistir às vítimas.
Rede Conecta
Lançada em 25 de agosto, a plataforma já cobre 21 municípios da região metropolitana de Goiânia e reúne informações sobre acolhimento, saúde, justiça e autonomia para vítimas de violência doméstica.
Os números apresentados no programa são alarmantes. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, alta de 4% em relação a 2024, além de quase 4,2 mil tentativas e mais de 132 mil descumprimentos de medidas protetivas. Em Goiás, os índices superam a média nacional, e cerca de 70% dos casos acontecem dentro de casa, cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
Para Márcia Pelá, esse cenário não pode ser explicado apenas por fatores individuais, mas por uma estrutura de desigualdade histórica que atravessa leis, instituições e a própria cultura.
Como exemplo dessa omissão, Geralda traz o exemplo da Secretaria Estadual da Mulher em Goiás que já foi criada duas vezes, por falta de interesse de governos que destruíram políticas e dispositivos de atendimento criados por gestões anteriores.
“Não existem políticas de estado contra a violência da mulher (…) É falta de integração, tem morosidade. A execução da lei Maria da Penha durante esses 20 anos foi falha. E os números também dizem que onde a lei não alcança, é ali que a violência acontece”, resumiu Geralda.
Márcia explicou que a Rede Conecta nasceu justamente dessa lacuna: a fragmentação dos serviços públicos e a falta de informação acessível para quem precisa de socorro imediato. A plataforma reúne, em um único lugar, os canais de denúncia — como 180, 190, 192 e 153, este último ligado à Patrulha Maria da Penha —, além de indicar endereços, horários de atendimento e tipo de suporte disponível em cada município, sempre pensando na perspectiva de quem está em situação de vulnerabilidade. Há até um botão de “saída rápida”, que redireciona a navegação para o Google em caso de risco.
Violência doméstica nas eleições
Márcia também destacou que a maioria das vítimas de feminicídio já havia buscado ajuda antes de serem mortas, muitas vezes com medidas protetivas em vigor que não impediram o crime. Segundo ela, isso escancara falhas de monitoramento e de integração entre os órgãos responsáveis pela proteção das mulheres, justamente uma das lacunas que a nova plataforma tenta mapear, coletando dados sobre se os serviços listados realmente funcionam.
Neste episódio, o diálogo também abordou o silêncio da política institucional diante desse cenário, às vésperas das eleições de outubro. Márcia criticou o que chamou de apropriação de discursos por parte de candidatos que se apresentam como defensores das mulheres, mas que, na prática, votam contra pautas essenciais.
“Há uma apropriação de conceitos e também uma naturalização da violência e da mentira. Então você vê um monte de gente cara de pau falando que defende as políticas da mulher. Mas quem é contra acabar com a escala 6×1, quem é contra da lei para combater a misoginia, quem é contra negros, contra LGBTQIA+, quem é contra pobre é contra a emancipação da mulher também.”
Ela citou o caso de uma candidata a deputada federal por Goiás que, mesmo tendo sido secretária da Mulher, votou contra políticas voltadas ao público feminino, inclusive colaborando para a extinção da própria secretaria que comandou.
Para a pesquisadora, o recado às eleitoras é direto: é preciso ir além do discurso de campanha e investigar o histórico de votos e ações de cada candidato ou candidata.
Política para todas
Márcia também alertou para retrocessos em pauta no Congresso, como tentativas de revogar a lei que garante aborto legal em casos de estupro e de gravidez de fetos anencéfalos, além de propostas para enfraquecer a lei de alienação parental — usada, segundo ela, sobretudo por agressores para continuar exercendo controle sobre suas ex-companheiras através dos filhos.
Segundo a especialista, muitas pessoas, sobretudo mulheres, alegam falta de conhecimento ou de compreensão sobre política para não participar ou opinar. Para ela, a política se faz no dia a dia.
“A gente vive política: o preço do gás é política, você acordar 5 horas da manhã e chegar exausta na sua casa, ainda ter que fazer comida é política. Ou seja, não precisa ir longe, não. Olha para você, vê o cotidiano da sua vida e vê se está legal e pergunta o que você quer melhorar? E veja quais candidatos defendem isso. É simples assim.”
Informações e denúncias no processo eleitoral
Informações sobre o processo eleitoral, locais de votação, documentos e outras dúvidas podem ser tiradas na página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para o cidadão ou a cidadã que encontra violações ao processo, como divulgação de informação falsa, a orientação é preservar as provas e denunciar pelos canais oficiais: nos sites do Ministério Público Federal (MPF) e Estadual, pela ouvidoria dos Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) e pelo aplicativo Pardal, desenvolvido pelo TSE, disponível para Android e IOS. Anna Raquel lembrou que o nome do denunciante não é divulgado.
O Segundamente é uma produção da Associação Mulheres na Comunicação, com apresentação de Geralda Cunha e participação da advogada Anna Raquel Gomes. Na equipe de produção o programa conta com Bruna Porto e Rayi Kena, neste episódio também participou Benke Ferraz na mesa de edição.
Novos episódios da temporada 2026 serão lançados nas próximas semanas no canal de YouTube da AMC.
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