Taís Ladeira e Sofía Hammoe
Mais de 20 associações acadêmicas e grupos de pesquisa ligados à comunicação pública, ao jornalismo e à comunicação popular enviaram à direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) uma carta de apoio à criação de um Centro de Pesquisa Aplicada, Desenvolvimento e Inovação em Comunicação Pública dentro da empresa.
A proposta, apresentada na semana passada durante reunião conjunta dos comitês de participação social da EBC, busca retomar um projeto iniciado em 2015 e que foi interrompido após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no ano seguinte.
A expectativa dos organizadores é de que o centro seja oficialmente lançado durante o Intercom 2026, maior congresso de comunicação do país, que ocorrerá em setembro, na Universidade Católica de Brasília. Mas, para além da criação de uma nova estrutura institucional, pesquisadoras envolvidas na articulação, e consultadas pela Pulsar Brasil, defendem que a iniciativa pode abrir espaço para uma reconstrução mais ampla da comunicação pública brasileira, incluindo universidades, emissoras regionais e comunicadores populares.
“A comunicação pública precisa ouvir o território”
Jornalista da EBC e pesquisadora em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Akemi Nitahara afirma que o debate sobre um centro de pesquisa não nasce agora. Segundo ela, a proposta começou a ser construída há mais de dez anos, mas foi interrompida em meio às mudanças políticas ocorridas em 2016.
“O projeto da criação de um Centro de Pesquisa em Comunicação Pública dentro da EBC não é de hoje. A gente teve uma iniciativa lá em 2015, 2016, que começou a formatar um centro nesse sentido e foi interrompido com o golpe de 2016”, afirmou.
Para Akemi, o cenário atual é diferente daquele período porque houve um crescimento significativo das pesquisas sobre comunicação pública no Brasil, além do fortalecimento de redes acadêmicas e de participação social ligadas à EBC. Ela destaca que os comitês de participação social, recriados nos últimos anos, podem ajudar a aproximar pesquisadores, universidades e emissoras públicas de diferentes regiões do país.
“A gente percebe hoje que existe muito mais pesquisa e conhecimento acumulado sobre comunicação pública. Isso é importante porque essas pesquisas podem apontar problemas, caminhos e formas de fortalecimento para desenvolver melhor esse campo”, disse.
A pesquisadora avalia que a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), que reúne rádios e TVs públicas e educativas em diversas regiões, pode funcionar como base para uma articulação mais federalizada do projeto. Segundo ela, a participação de universidades espalhadas pelo país amplia a possibilidade de construção coletiva do centro de pesquisa.
Comunicação comunitária como parte da comunicação pública
Um dos pontos mais enfatizados pelas especialistas ouvidas é a necessidade de incluir a comunicação comunitária dentro do debate sobre comunicação pública. Para Akemi Nitahara, rádios comunitárias e comunicadores populares já realizam, nos territórios, experiências concretas de interesse público que poderiam contribuir diretamente com a EBC.
“A comunicação comunitária é um universo gigantesco de estudo e atuação dentro do Brasil, que com certeza tem muito a contribuir com a comunicação pública”.
Ela defende, inclusive, que a empresa avance na criação de editais e mecanismos de participação que permitam a circulação de conteúdos produzidos por comunicadores populares dentro da programação pública nacional:
“Eu gostaria muito de ver editais ou algum estímulo para que comunicadores populares pudessem colocar seus conteúdos dentro da EBC e serem remunerados de forma justa por isso. Isso só enriquece a diversidade da comunicação pública”.
Akemi também considera que emissoras comunitárias poderiam integrar de forma mais efetiva a Rede Nacional de Comunicação Pública. Para ela, essas mídias exercem uma função essencial de comunicação nas comunidades, muitas vezes onde outros veículos não chegam.
“A defesa da democracia depende da comunicação pública”
Ex-ouvidora-geral da EBC e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), Joseti Marques avalia que o centro de pesquisa pode representar um passo estratégico para consolidar uma identidade própria da comunicação pública no Brasil.
“A defesa da democracia depende fortemente de uma comunicação que somente pode ser pensada e construída no âmbito da comunicação pública”, destacou.
Joseti lembra que a própria lei de criação da EBC já previa princípios ligados à inovação, formação continuada e desenvolvimento de novos formatos de comunicação. Para ela, o desafio agora é transformar esses princípios em uma prática permanente de pesquisa e construção coletiva.
Segundo a pesquisadora, o centro não deve funcionar apenas como uma escola tradicional de formação profissional, mas como um espaço vivo de experimentação, escuta social e inovação aplicada à realidade brasileira.
“Não queremos que um centro de pesquisa se transforme numa grande sala de aula. É outra coisa. É um espaço para construir caminhos novos para a comunicação pública”, afirmou.
Ao falar sobre comunicação comunitária, Joseti defende que ela seja compreendida como parte natural da comunicação pública brasileira. Para ela, não é possível pensar políticas de mídia pública sem considerar os territórios, os movimentos sociais e os públicos historicamente invisibilizados pelos grandes meios de comunicação.
“Não podemos pensar que, se o público não gostou, basta trocar de canal. Na comunicação pública, precisamos dialogar com as pessoas para que elas se sintam parte desse projeto”.
Ela também criticou o que chamou de modelo “predatório” predominante nas mídias comerciais e digitais e afirmou que um centro de pesquisa em comunicação pública pode ajudar a construir alternativas voltadas ao interesse coletivo, e não apenas à lógica de mercado.
Experiências internacionais e articulação nacional
A carta encaminhada à direção da EBC pedindo a criação do Centro de Pesquisa reúne entidades como Intercom, Socicom, SBPJor, ABEJ, Compolítica, RNCD e a Associação Brasileira de Pesquisadores e Comunicadores em Comunicação Popular, Comunitária e Cidadã (ABPCom). O documento cita experiências internacionais de comunicação pública, como os centros de pesquisa mantidos pela BBC, no Reino Unido, e pela NHK, no Japão, como exemplos de como pesquisa, inovação e mídia pública podem caminhar juntas.
Para estes grupos, a criação do Centro pode representar não apenas o fortalecimento institucional da EBC, mas também uma oportunidade de aproximar Universidade, produção de conteúdo, participação social e comunicação comunitária em um mesmo projeto de consolidação democrática da comunicação brasileira.
Leia a carta enviada à Diretoria da EBC neste link
Áudio Akemi Nitahara
Áudio Joseti Marques

